domingo, 5 de maio de 2013

Frederico Figner e a Casa Edison

(O texto desta postagem foi adaptado da Wikipedia sem referência de autor)

Frederico Figner (1866-1947)

FIGNER E OS GRAMOFONES

Frederico Figner nasceu em dezembro de 1866 em Milewko, na então Tcheco-Eslováquia. Ainda muito jovem e buscando ampliar seus horizontes migrou para os Estados Unidos, chegando ao país no momento em que Thomas Edison estava lançando um aparelho que registrava e reproduzia sons por intermédio de cilindros giratórios.

Fascinado pela novidade, adquiriu um desses equipamentos e vários rolos de gravação, embarcando com sua preciosa carga em um navio rumo a Belém do Pará, onde chegou em 1891 sem conhecer uma única palavra do Português. Naquela cidade começou a exibir a novidade para o público, que pagava para registrar e escutar a própria voz. O sucesso foi imediato e, de Belém, Fred se dirigiu para outras praças, sempre com o gravador a tiracolo.

Comercial da Casa Edison da Rua Uruguaiana

CASA EDISON
 
Passou por Manaus, Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife e Salvador antes de chegar ao Rio de Janeiro, no ano seguinte, já falando e entendendo um pouquinho do nosso idioma e com um razoável pé de meia. Na Cidade Maravilhosa Figner abriu sua primeira loja, a Casa Edison, em um sobrado da Rua Uruguaiana, onde importava e comercializava esses primeiros fonógrafos.

Casa Edison da Rua do Ouvidor

Por essa mesma época o cientista judeu Emile Berliner tinha acabado de lançar nos Estados Unidos um equipamento de gravação que utilizava discos revestidos com cera, com qualidade sonora superior ao do aparelho de Thomas Edison. Fred Figner percebeu de imediato o potencial da nova invenção e transferiu seu estabelecimento de um sobrado da Rua Uruguaiana para uma loja térrea na tradicional Rua do Ouvidor, onde abriu o primeiro estúdio de gravação e varejo de discos do Brasil, em 1900.

Disco com o selo Odeon Record
OS PRIMEIROS DISCOS

Os discos fabricados por Figner nessa fase inicial utilizavam cera de carnaúba, eram gravados em apenas uma das faces e tocados em vitrolas movidas a manivela. Apesar das limitações técnicas, essa iniciativa representou uma verdadeira revolução para a música popular brasileira, que engatinhava, pois até então os artistas só podiam se apresentar ao vivo ou comercializar suas criações por intermédio de partituras impressas.

Divulgação do acervo de gravações da Casa Edison
O primeiro disco brasileiro foi gravado na Casa Edison pelo cantor Manuel Pedro dos Santos, o Bahiano, em 1902. Era o lundu “Isto é Bom”, de autoria do seu conterrâneo Xisto da Bahia. A partir daí mais e mais artistas começaram a gravar suas composições em discos que eram distribuídos pela Casa Edison do Rio e também pela filial que Figner havia aberto em São Paulo. A procura pelos discos cresceu tanto que em 1913 Fred decidiu instalar uma indústria fonográfica de grande porte na Av. 28 de Setembro, Vila Isabel, dando origem ao consagrado selo Odeon.

A música "Pelo Telephone", composição de Donga e Mauro de Almeida, e interpretada por Bahiano, é considerada a primeira gravação nacional em disco de um samba. Ouça a gravação original:



A MANSÃO FIGNER

Fred Figner era um homem à frente do seu tempo e para coroar o sucesso nos negócios decidiu erguer uma residência que espelhasse seu perfil empreendedor. A hoje conhecida Mansão Figner, na Rua Marquês de Abrantes 99, no Flamengo, abriga o Centro Cultural Arte-Sesc e o restaurante Bistrô do Senac. É considerada um exemplo arquitetônico raro de “casa burguesa do início do século 20”.


Mansão Figner

Fred Figner utilizou-a como hospital, em 1918, durante a pandemia conhecida como Gripe Espanhola. Apesar dele próprio estar acometido pela enfermidade, atuou como um prestativo auxiliar de enfermagem, transformando seu palacete em uma improvisada enfermaria de campanha que chegou a abrigar quatorze pacientes em seu interior.

RETIRO DOS ARTISTAS

Fred era um homem generoso e solidário. Pela própria natureza do trabalho nas suas duas gravadoras havia se tornado amigo de muitos músicos e cantores de sucesso. Em uma época que antecedeu à criação da Previdência, ficou consternado com a situação de penúria que alguns desses artistas tinham de enfrentar ao chegar à velhice.

Retiro dos Artistas em Jacarepaguá

Sensibilizado com esse verdadeiro drama social, não titubeou e decidiu doar o terreno, em Jacarepaguá, para a construção da modelar instituição Retiro dos Artistas, que funciona até os dias de hoje.

O FINAL

Em 19 de janeiro de 1947, quando faleceu, aos 81 anos de idade, ao se abrir seu testamento, verificou-se que Fred Figner havia destinado parte substancial dos seus bens às obras sociais de Chico Xavier.


 O jornal carioca A Noite Ilustrada publicou editorial em que o judeu Frederico Figner foi honrado, post-mortem, com o merecido título de “o mais brasileiro de todos os estrangeiros”.

LIVRO
 
Conheça um pouco mais da história da Casa Edison com o livro "A Casa Edison E seu Tempo", do pesquisador Humberto Franceschi. A publicação é da Editora Sarapuí e gravadora Biscoito Fino (2002) e conta a trajetória daquela que foi a primeira compainha de discos do país, ativa entre 1902 a 1932. A obra inclui cinco CDs com imagens e documentos do acervo da Casa Edison e quatro CDs com gravações originais de músicas da época. 


Até a próxima!

sábado, 13 de abril de 2013

Vincent Montana Jr.

  Vincent Montana Jr.  (*1928 † 2013) 

O músico norteamericano Vince Montana foi compositor, arranjador e percussionista, membro do MFSB (Mother Father Sister Brother) e fundador da Orquestra Salsoul.
 
Relembre alguns momentos da produção desse grande artista da disco music:










Até a próxima!

sábado, 6 de abril de 2013

Earth, Wind & Fire - That's the Way of the World (1975)




That's the Way of the World é o 6o álbum do Earth, Wind & Fire (EWF), banda americana cuja marca registrada é mesclar rítmos como soul, disco, rhythm and blues, funk, jazz e rock. Lançado em 1975, o disco contém a trilha sonora do filme homônimo, estrelado por Harvey Keitel e Ed Nelson, com participação do EWF.


Ouça a música título:


O álbum foi produzido por Maurice White (band leader) e Charles Stepney para o selo Columbia, e tornou-se um dos grandes sucessos de vendas da banda. Vale uma audição!

Músicas

A1. Shining Star    
A2. That's The Way Of The World         
A3. Happy Feelin'         
A4. All About Love        
B1. Yearnin' Learnin'
B2. Reasons
B3. Africano
B4. See The Light

Até a próxima!

terça-feira, 19 de março de 2013

Restauração do Toca-discos Pioneer PL-530

Ano passado resolvi encarar a restauração de um toca-discos Pioneer PL-530 adquirido no estado. Veja como ele estava:

 
 Depois da restauração ele ficou assim:


Ficou curioso com o resultado? Veja como foi o processo de restauração visitando o álbum de fotos do Picasa. Clique aqui.

Até a próxima!

sábado, 2 de março de 2013

Dizzy Gillespie no Brasil com Trio Mocotó



Um disco gravado em São Paulo no ano de 1974 mas que só foi lançado (tardiamente) no Brasil em 2010. Foi o que aconteceu com o álbum Dizzy Gillespie no Brasil com Trio Mocotó, trabalho que reúne o trompetista criador do estilo bebop, sua banda e um competente grupo de ritmistas brasileiros.


A mistura samba e jazz é protagonizada por Dizzy Gillespie (trompete),  João Parayba (percussão), Nereu Gargalo (pandeiro), Fritz Escovão (cuíca), Mary Stallings (vocais em Evil Gal Blues), Al Gafa (guitarra), Earl May (baixo) e Mickey Roker (bateria). O resultado é de uma harmonia ímpar, como pode ser constatado com a música de abertura "Samba", que você pode ouvir abaixo:


As seis faixas foram gravadas em uma única sessão de 8 horas ininterruptas no Estúdio Eldorado e a produção ficou a cargo do suíço Jacques Muyal, pela gravadora Biscoito Fino. Sem dúvida, é um álbum que merece fazer parte da cdteca dos apreciadores de boa música.

Músicas:

1. Samba (6:27)
2. The Truth (7:20)
3. Dizzy’s Shout (8:34)
4. Evil Gail Blues (5:10)
5. Behind The Moonbean (5:22)
6. Rocking With Mocotó (6:36)

Até a próxima!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Nektar - Remember The Future (1973)




O álbum Remember The Future é uma obra conceitual da banda inglesa Nektar. Criada em 1969 a banda era formada por Roye Albrighton (vocais e guitarra), Allan Freeman (teclado), Ron Howden (bateria e percussão) e Derek Moore (baixo) e Mick Brockett (iluminação e vocais).


Lançado em 1973, o álbum traz músicas que contam a inusitada história de um menino cego que se comunica com Bluebird, um extraterrestre. O contato telepático com Bluebird leva o menino a ter uma série de visões que lhe mostram o passado e o futuro, causando um misto de confusão e expectativa. Enquanto as letras remetem à reflexão sobre o sentido da existência, viagens estelares e ficção científica, as melodias mostram a criatividade e o grande talento instrumental do grupo, cujas variações permitem ir de acordes mais eruditos à guitarra visceral do rock, numa grande viagem estética pelo progressivo.

Remember The Future é uma obra que merece ser ouvida com atenção e fazer parte de qualquer discoteca especializada em música de altíssimo nível.


Músicas:

A1 - Remember the Future (Part I)
a. Images of the Past
b. Wheel of Time
c. Remember the Future
d. Confusion

B1 - Remember the Future (Part II)
e. Returning Light
f. Questions and Answers
g. Tomorrow Never Comes
h. Path of Light
i. Recognition
j. Let It Grow

domingo, 23 de setembro de 2012

Artigo - De Volta Para O Vinil


Por Peter Aspden, do Financial Times

Você não compra um álbum - um álbum de verdade - há anos, porque a maioria dos discos parece ser ruim e, além disso, onde está a graça de ficar brigando com um estojo de plástico esquisito ou, pior, de baixar silenciosamente da internet arquivos de dados. O rock e a música popular perderam a alma que começará a falar sobre a beleza dos discos de vinil. Se você estiver particularmente sentimental, poderá começar a descrever os riscos em seus discos favoritos, embora a esta altura possa perder seus interlocutores, especialmente se eles ainda não estiverem recebendo suas aposentadorias e não conseguirem ver qual é a importância de um risco em um disco de vinil.

Mas os riscos são importantes. "Somos todos filhos de John Cage [1912-1992] e sabemos que o silêncio não existe", diz Andrew Renton. Escritor, acadêmico e curador, ele fica tão entusiasmado ao encontrar novos riscos e chiados que acabou se transformando no que é atualmente conhecido como "vinyl junkie", um viciado em vinil. "Dei todos os meus discos há 15 anos e todos os dias me arrependo disso", diz. "Achei que não ia mais precisar deles, e também não tinha mais espaço em casa. Mas com eles perdi uma parte enorme do meu ser. Foi a era digital que fez isso. Passei a última década tentando comprar novamente todos os discos que dei."

O ano de 1977 viu uma série de lançamentos importantes na história da música pop, como "Low", de David Bowie

A era digital: um tempo milagroso para a informação, acessibilidade, o armazenamento e a portabilidade; um tempo ruim para o disco de vinil. A entidade que teve início há 60 anos com o nome Long Playing Record está em crise. Números divulgados pela indústria fonográfica do Reino Unido em julho revelaram que, apesar do tão alardeado crescimento do mercado digital, as vendas de discos no Reino Unido caíram 12,7% no segundo trimestre em comparação ao mesmo período do ano passado. As vendas totais de discos no primeiro semestre deste ano foram de 43,6 milhões de unidades, uma queda de 13,8% sobre os 50,5 milhões de álbuns vendidos no primeiro semestre de 2011. O padrão é parecido no mundo todo.

Estes números desanimadores surgem dois meses após o anúncio de que as vendas do formato digital superaram as vendas físicas pela primeira vez, respondendo por 55,5% das receitas registradas no Reino Unido no primeiro trimestre de 2012. As gravadoras tentaram apresentar isso como uma pequena vitória. Mesmo assim, é fato que estamos comprando menos música. E o álbum - o esteio do setor na era dourada do rock, que começou na década de 1960 e desapareceu em algum momento na virada do milênio - está rapidamente se tornando uma irrelevância musical.

Besteira, afirmam aqueles que se negam a aceitar o declínio, reagindo com uma única palavra: Adele. O segundo álbum da cantora britânica, "21", vem tendo um desempenho surpreendente desde seu lançamento no começo de 2011. Ele lentamente vem ganhando posições na lista dos discos mais vendidos no Reino Unido em todos os tempos e em maio superou "Thriller" (1982), de Michael Jackson, passando a ocupar o quinto posto na lista. "21", um disco influenciado pelo soul americano, está bem acompanhado: os quatro únicos discos que venderam mais cópias no Reino Unido são "Greatest Hits" (1981); do Queen; "Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band" (1967), dos Beatles, "Gold: Greatest Hits" (1992), do Abba, e "(What's the Story) Morning Glory?" (1995), do Oasis. ("Thriller" continua sendo o disco mais vendido de todos os tempos no mundo, com mais de 100 milhões de cópias.) Mas esta é uma exceção dentro da tendência. É admirável "21" ainda ocupar a primeira posição nas paradas em abril de 2012, mais de um ano após seu lançamento. Menos impressionantes foram suas vendas na semana em questão: apenas 17.000 cópias, o menor número de um topo de parada no Reino Unido desde 1995.

Isso não deveria ser surpresa. No mundo digital, que advoga a brevidade e gera períodos de atenção curtos, não há motivo para uma peça de música de 45 minutos dividida em faixas cuidadosamente ordenadas continuar sendo a unidade de produção mais importante de música popular.

Os álbuns foram criados principalmente para os amantes da música clássica, que a partir daí não precisaram mais interromper suas sinfonias e óperas para trocar uma caixa inteira de discos de 78 rotações por minuto. O novo formato era compacto e atraente, não só pela qualidade do som como também pela embalagem. Os pioneiros do design de capas de discos, como Alex Steinweiss (1917-2011), da Columbia, podiam embelezar as capas de 12 polegadas com ilustrações arrojadas que ocupavam posição de destaque na prática artística.

Mas foi preciso tempo para o álbum ganhar confiança no mundo da música popular. Inicialmente os discos eram tidos como os veículos onde os singles de grande vendagem iam inseridos, como se fossem jukeboxes portáteis. Mas nos anos 1950, os artistas de jazz começaram a atrelar a música de um álbum a conceitos livres. "Songs for Swingin' Lovers!" (1956), de Frank Sinatra, trazia uma capa de concepção suave, anunciando músicas românticas e fáceis. Era para ser ouvido em sua totalidade.

Nas décadas seguintes o disco de vinil estabeleceu sua hegemonia sobre a indústria da música, da extravagância psicodélica de "Pet Sounds" (1966), dos Beach Boys, aos ambiciosos álbuns conceituais: "Tommy" (1969), do The Who; "Thick as a Brick" (1972), do Jethro Tull; e "The Dark Side of the Moon" (1973), do Pink Floyd, o segundo disco mais vendido no mundo. O álbum de rock ganhou peso e pretensão, ainda que nem sempre o apuro técnico da música clássica.

Todos têm, levando em conta o gosto pessoal, seu ano mais pródigo em discos. Na minha opinião, é difícil bater 1977, quando foram lançados sucessos comerciais como "Rumours", do Fleetwood Mac, e a trilha sonora de "Os Embalos de Sábado à Noite". Foi também o ano das estreias atribuladas do The Clash, do Sex Pistols, The Jam e Elvis Costello; o ano das estreias inteligentes dos "art-rockers" americanos do Television ("Marquee Moon") e do Talking Heads ("Talking Heads: 77"); o ano do virtuosismo engenhoso de "Aja", do Steely Dan; e de dois grandes trabalhos de David Bowie, "Low" e "Heroes". É difícil ignorar uma lista dessas. O disco de vinil estava cobrindo todas as bases e vendendo aos montes.

A introdução do CD (compact disc) nos anos 1980 serviu apenas para reforçar a supremacia dos álbuns. Vendidos com a promessa de serem indestrutíveis e apresentar uma qualidade de som superior (adeus riscos e chiados!), eles conquistaram os compradores de discos, levando muitos a refazer todas as suas coleções. Novos gigantes surgiram no mundo da música - Dire Straits, Madonna -, mas o formato triunfante do LP permaneceu intacto.

Isso poderia ter acontecido de novo na revolução digital. Mas não aconteceu.

A velocidade da supervia da informação acabou transformando o jogo. Ela eliminou as faixas longas. Os próprios artistas responderam trabalhando em formatos mais curtos: singles de vídeo veiculados no YouTube e EPs, como "The Fame Monster" (2009), de Lady Gaga. A marcha inexorável do iTunes rumo ao domínio da distribuição de música tornou a necessidade dos álbuns quase obsoleta: a cultura do pegar-e-misturar havia chegado para ficar.

Mas um fenômeno estranho ocorreu enquanto a revolução digital acabava com as normas do setor: as pessoas começaram a pedir suas músicas favoritas em vinil novamente. Sempre houve dissidentes insistindo que a compressão da música digital piorava a qualidade da experiência auditiva. O que estava ocorrendo era diferente também em outro sentido: entre os jovens, os discos de vinil passaram a ser um distintivo de honra retrô. Esqueça seu iPod e os telefones diminutos. Isso é a verdadeira música, para ser tocada em seu formato adequado.

"O problema com a era digital é que é muito mais difícil formar um laço com a música", diz Renton, professor de curadoria do Goldsmiths College de Londres. "Estamos na era do 'shuffle' [embaralhar] e do botão 'next' [próximo]. Perdemos nossa disciplina." Os rituais perdidos de segurar um disco de vinil pelas bordas e colocá-lo no toca-discos, diz ele, forçavam você a ouvir as coisas até o fim. "Isso é muito menos provável agora, quando você pode simplesmente apertar o 'fast-forward'. Eu era muito sistemático a esse respeito. Uma vez que eu colocava um disco para tocar, tinha que ter certeza de que teria 45 minutos para ir até o fim, não importando o que pudesse acontecer."

Renton, que está com 49 anos, diz que o problema da qualidade do som é quase incidental. "Eu nem tenho um toca-discos. Mas estou comprando mais e mais discos de vinil. Vai entender!" Ele diz que na "nova democracia" da era digital, em que a acessibilidade mundial e a distribuição são possíveis pela primeira vez, podemos nos pegar ouvindo muita música e nos apegar a objetos e experiências do passado por insegurança. É a amplitude e o ritmo da paisagem sonora atual que nos desorienta. "Você está no segundo verso de uma música e já está nostálgico com o primeiro. A nostalgia é instantânea." Daí o retorno às virtudes sólidas e de movimentos lentos do vinil.

Mas nem tudo é só nostalgia. Na Walton Street, no elegante distrito londrino de Brompton Cross, os discos de vinil estão dando seus primeiros e improváveis passos no complexo mundo da moda e dos artigos de luxo. Na galeria Vinyl Factory, edições especiais de discos de vinil, com as capas originais e prensagens de alta qualidade, são vendidas para aficionados que abraçam os mundos da música e das artes plásticas com igual fervor.

Uma edição de capa dupla de "Le Voyage Dans La Lune" (2012), dos franceses do Air, custa 30 libras. Mas você pode também comprar uma caixa com quatro discos, um DVD e material impresso por 200 libras. O mais recente álbum do grupo Duran Duran, "All You Need Is Now", está disponível por 250 libras, em uma tiragem de 500 cópias que inclui o disco em vinil transparente (sem informações confusas no selo) e uma caixa que serve de moldura. Você pode tocar o disco ou colocá-lo em uma prateleira.

Sean Bidder, diretor de criação da Vinyl Factory, diz que a demanda por essas edições híbridas é animadora e vem de todas as partes do mundo. "Parece que o fascínio pelo número infinito de escolhas está diminuindo um pouco", diz ele. "Será que realmente há prazer em ter de ficar constantemente atento a tudo? Talvez as pessoas queiram saber mais sobre um número menor de coisas." Ele diz que a demanda "retromaníaca" pelos discos de vinil é análoga ao movimento Slow Food: "As pessoas não precisam comprar coisas que não querem, preferindo se concentrar na qualidade. Se for interessante, estimulante e benfeito, as pessoas vão pagar mais pelo produto". A companhia faz uma prensagem de alta qualidade e usa técnicos em silkscreen conceituados, diz Bidder. "É como um retorno à era da habilidade artesanal."

Os artistas, atentos ao novo modelo de negócios, estão fatiando seus produtos em contratos diferentes para distribuição digital, física e edições especiais. Nos anos triunfantes em que as gravadoras podiam cobrar o que queriam de produtos mal embalados e mal concebidos, das profundezas das pesquisas de mercado surgiu a figura desafortunada do sujeito cinquentão e bem de vida, que não pensava duas vezes antes de entrar em uma grande loja de discos, no caminho para casa depois de alguns drinques num pub, para gastar uma boa soma em CDs que o lembravam de sua paixão da juventude.

Era fácil, conveniente e rápido. Mas a paixão era a única coisa que não podia ser comprada. O milagre da mídia digital tornou a música ainda mais conveniente e a afastou ainda mais dos nossos corações. A nova era do vinil nada mais é que uma reação contra o excesso: a variedade excessiva de escolhas, a velocidade excessiva, a conveniência excessiva. Sabemos, no fundo, que a paixão pela música deve ser mais exigente do que isso. Nos sentamos, colocamos cuidadosamente a agulha sobre o disco e nos submetemos, num êxtase antecipado, ao primeiro chiado do dia. E realmente ouvimos.